Capítulo 3
Ainda chovia, e a água quente caia do chuveiro como a água fria caia do céu lá fora. Dava para ver o céu da janela do banheiro de Mari, uma parte do vidro estava quebrada.
E Lis se entrentera um pouco com isso, terminou seu banho, pelo qual era grata, estava agora com seu corpo quente e roupas secas. Destrancou a porta e agradeceu a bondosa pessoa com quem encontrara na rua por ter sido tão gentil. Isso tudo ao aroma de um chá, chá natural, o qual Lis costumava tomar quando pequena.
-Obrigada, Mari, por estar sendo tão gentil, doce e complascente. É inacreditável a begnidade de um ser como tu és.
-Encanta-me as palavras, senhorita- ela disse servindo o chá -as usa bem. Fico grata, obrigada!
- De nada, querida.
As duas ficaram em silêncio, por uns instantes só se escutou o barulho da chuva, e o vapor que suas canecas quentes exalavam. Estavam sentadas ao chão, em almofadas.
Mari estava encostada na parede, olhava para o chá e todas as lembranças que ele lhe trazia, olhou a admirável garota, que segurava seu chá e sentada de perna de índio observava através da janela o cair dos pingos.
Resolveu interromper o silêncio.
-Sabe -respirou- eu deveria estar no trabalho agora -disse isso, contudo não soava preocupada.
A garota lhe olhou.
-Mas quando senti sua essência e olhei dentro dos seus olhos, eu senti que deveria estar aqui, eu senti que seria diferente, eu senti, e isso era tudo que eu precisava.
O mundo lá fora chove, e ninguém te chama pra dançar na chuva, todos apenas reclamam, e seguem suas vidas. E é o que tenho feito há tanto tempo… -ela olhou para cima, seus olhos cediam.- e quando eu olho pra trás, não tenho orgulho do que me tornei.
Um olhar terno era sua resposta.
-Eu tinha tantos sonhos… - e aqui foi o estopim, como o céu chorou, assim também o chuveiro e tão logo Lis. Ela ia se encolhendo.
Mari por sua vez se aproximou e deu a mão. Isso deu-lhe calma para respirar e forças para continuar.
-Quando vi você Mari, é como se visse a mim mesma no passado, cheia de sonhos e vida, ânimo, perseverança mesmo em tempo chuvoso. E isso me resgatou -ela disse sorrindo- eu lembrei de quem eu realmente era, quem eu realmente queria ser, e meu propósito. O tempo passa, os propósitos mudam, e eles precisam mudar. No entanto a essência, ah, ela nunca muda!